Um dia desses, enquanto apagava velhas mensagens, fotografias, recados, marcas e sinais daquilo que já não faz mais parte dessa nova vida, por um segundo, algo estranho me acometeu: quis apagar também coisas que guardo da minha avó.
Há muito tempo penso que não faz o mínimo sentido guardar o telefone dela na agenda do celular, como faço. A única coisa que isso me traz é um frio na barriga, um susto e uma infelicidade quando passo sobre a letra v, por acaso. Nem sempre por acaso.
É estranho pensar que se um dia arriscasse ligar para ela, como já quase fiz uma vez, viveria uma experiência surreal: o telefone teria que tocar aqui, na minha casa, porque hoje moro na casa que há menos de seis meses era dela, toda ela.
E se ele não tocar, é porque de fato ela não mora mais aqui. Ela não mora em lugar nenhum.
Há pouco tempo, em uma conversa desabafo, confessei a uma pessoa que, desde aquele dia 30 de abril, eu vivia tentando solucionar, frustradamente, três coisas: a melancolia, que não sei por que me escolheu como um abrigo nos últimos meses, a procura pela a minha avó, que cisma em não voltar pra cá, e um namoro decadente, que por mais que eu tenha querido que desse certo, por mais que tenha despejado litros de suor e lágrimas, por mais que eu amasse muito essa pessoa, também foi embora sem cismar de voltar.
E o fato de ter sido 30 de abril, muda muita coisa.
Mexendo nas coisas da minha avó, pouco depois dela ter ido embora, eu descobri uma coisa interessante: ela nasceu no dia 30 de junho, casou-se no dia 30 de janeiro, faleceu no dia 30 de abril. Nada faz mais sentido do que isso.
Minha avó, embora eu a tenha conhecido divorciada, por todo o tempo me falou que na vida nós só temos um grande amor. E que se, por algum motivo, ele não deu certo, que ela esperasse para reencontrá-lo na próxima vida. Minha avó era romântica e espírita e, embora eu nunca tenha acreditado nessa crença, sempre admirei o fato dela ter uma convicção tão forte sobre o amor. E, no dia do seu enterro, quando vi meu avô, que por tantas vezes fez minha avó sofrer, colocando sentidamente uma rosa vermelha no seu caixão, muitas coisas fizeram sentido pra mim.
Uma, que a vida é mesmo um ciclo. E meu avô ali, iniciando aquela entrega de rosas, encerrou aquele ciclo marcado pelos 30s. Agora minha avó poderia seguir, sabendo que foi amada, ainda que às tortas, para no próximo ciclo reencontrar seu grande amor. Que não será meu avô, mas que pelo o que eu entendi certa vez, será o espírito dele encarnado em outra pessoa, com novas missões e novas coisas para aprender. Seria, de fato, a ideia da alma gêmea.
Outra coisa que aprendi, é que existem diferentes formas de se amar uma pessoa. Minha avó sempre amou meu avô, mesmo depois que eles se separaram. Sabia dos seus casos, sabia que ele a fazia sofrer. Mas nunca deixou de amá-lo. De querer bem, de abrir as portas de casa quando ele precisava. Meu avô, por sua vez, foi procurar a felicidade em outros e muitos lugares. Mas sempre, sempre, voltava para pedir ajuda para a minha avó. Ela talvez não suprisse todos os anseios dele, mas ela era a força, a segurança, o colo e, o amor mais puro.
E assim terminaram. Ela, vestida de rosa, forte, tranquila, serena, como quem encara a morte como uma viagem – sem deixar para trás quaisquer resquícios de ressentimento com aquele amor diferente. Ele, sem chão, só memórias, virou as costas e foi procurar as carnes da vida terrena.
Todos esses pensamentos vieram quando percebi que quando me senti forte, pela primeira vez, para apagar aquele namoro decadente e quase forte para apagar as marcas doídas que minha avó me deixara, era dia 30. 30 de setembro.
Outro ciclo se fechou ali.
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