terça-feira, 6 de outubro de 2009

Janela aberta.

Às vezes fico pensando se algum dos muitos vizinhos que têm acesso à minha janela acompanha minha vida.

Me vê apressada, dormindo, trocando de roupa, conversando, lendo, estudando.

Me viu, semanas atrás, amando, apaixonada. Chamando público para presenciar o meu amor, compartilhar minha felicidade.

Me viu, semana atrás, odiando, gritando, esbravejando, debatendo, batendo, matando, morrendo. Chorando, sofrendo, vomitando, caindo.

O que será que ele pensa de tudo isso?

Será que torce por um final feliz?

Lem(e) da viagem

Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Clarice Lispector

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Me add aí, vai..

Eu sou uma pessoa legal. Sei que sou. Sei bater um papo interessante em um bar, sei passar o cabelo de um lado pro outro quando quero. Tenho personalidade forte, sei emitir opinião sobre as coisas. Tenho posicionamento, virtudes, princípios. Meu corpo também é legal. Sei que sou inteligente, que tenho cultura. Tenho cultura inútil também, para quebrar o gelo do dia a dia. Sei ser leve, mas sei também levar as coisas a sério. Faço um curso interessante, desperto interesse em outras pessoas. Já consegui ficar com muitas pessoas que quis ficar. Eu sou legal, eu sei que sou legal.

Mas porque insisto em não querer ser minha amiga?

sábado, 3 de outubro de 2009

Amores surdos

Tem uma cena que, há alguns dias, não sai da minha cabeça.

É de quando, em Por Elise,entra no palco um cara vestido com uma grande armadura para buscar o cachorro tão amado de uma moça tão sofrida. Quando ela o encontra, temerosa de mandar seu cachorro para o sacrifício, pergunta por que ele tem que usar aquela roupa, assim, daquele jeito. Tão dura, tão grande, tão distante, fria, resistente. Ele responde: “é o meu uniforme”. Ela então, em um acesso de fúria, começa a esmurrá-lo. Começa a esmurrá-lo como quem espera uma reação menos cruel do que a indiferença.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Uma coisa é uma coisa, ué

Acho tão complicado tentar entender nossos sentimentos hoje. Desvendamos tanta coisa, existem tantas mensagens por trás de detalhes, que chega uma hora que não sabemos mais perceber que uma coisa é, simplesmente, porque ela é.

Hoje, se aquilo que estava previsto para dar certo, dá errado, existem muitas explicações – muitas vezes inúteis. Não foi porque você estava de TPM? Por que você quer tanto repetir a história dos seus pais? Como não deixar a internet afetar seu relacionamento? Quais são as razões das brigas? O problema está com você ou com ele? Não seria uma autossabotagem? E se o destino quis assim? E, se Deus determinou assim? Ouça as 48747 técnicas para reconstituir esse quadro, que parece irreversível, mas não é.

Ouço tudo isso, todos os dias, todas as horas. E, a cada segundo que paro pra pensar nisso, acho uma justificativa nova, em cima de um argumento diferente.
Existe informação demais no mundo. Tudo é muito psicossomático, existem razões demais para tudo.

E a solução é sempre a mesma: repouso, atividade física e pílulas da alegria acompanhadas de tratamento para a cabecinha ruim.

Ai, que saudade de ser Poliana.

Dúvida

Por quê nos desenhos animados os vilões têm sempre uma voz sedutora?

Estou regando meu jardim

Quando fazia RPG, a um bom tempo atrás, minha fisioterapeuta, pessoa tão querida, disse: “nós só aprendemos a cuidar de nós mesmos, quando aprendemos a cuidar do outro”. A sugestão dela era então de que eu tivesse um cachorrinho, bichinho, ou plantinha qualquer para cuidar e, descobrir neles, como seria cuidar bem de mim.

Sem perceber, eu aprendi isso de outra forma. Passei pouco mais de dois anos cuidando de uma pessoa, tal como quem cuida de um filho, ou quem ama como um filho. Levava ao cabeleleiro, marcava fisioterapia, acompanhava no dermatologista, o assistia jogar futebol no final de semana, comprava roupas novas, dava colo nos momentos de tristeza, empurrava pra frente nos momentos de dúvida.

Hoje eu vejo que assim, eu aprendi a cuidar de mim. E que agora me sobra tempo para isso. Eu queria poder encontrar a Cláudia e agradecê-la por isso.
Saber cuidar da gente é a melhor coisa que existe. É saber quais são nossas necessidades, nossas vontades, nossas implicâncias, virtudes e angústias e estar prontamente pronta para atendê-las.

Este blog sou eu cuidando de mim. Ele não tem uma identidade diferente das demais. Não trata de uma viagem, de um olhar sobre o mundo, de uma experiência nova, de uma dor específica. Ele é somente (e muito mais) o meu amigo. Somos eu e ele. Eu falo, choro, penso, desabo, desabafo. E ele, me ouve. Só eu e ele, ele e eu.
Quisera eu que ele pudesse se esconder nas entranhas obscuras do Google e nunca aparecer disponível em qualquer busca. E que permanecesse esquecido na mente de quem acompanhou sua primeira fase, dois anos atrás. Quisera eu. Eu e ele. Ele e eu.